quarta-feira, 17 de abril de 2013

Recomeçar


Certo pai em idade avançada, percebe que seus dias estavam acabando e procura seu único filho para conversar sobre as coisas da vida, orientações, conselhos...Coisas que somente um pai amoroso pode oferecer ao rebento. Na conversa fala com o filho referente as amizades, que grande parte não eram sinceros, e que estavam somente interessados no dinheiro que ele tinha e que quando mais precisasse deles, o abandonaria. O jovem achando aquele papo o mais chato possível, ouviu para agradar o pai. No decorrer da conversa o ancião chama o filho até o quintal, onde se localizava uma velha casinha, abrindo a porta entram e veem somente ferramentas de trabalho e no fundo ao canto uma forca. O rapaz fica meio perturbado ao ver aquilo e movido por curiosidade interpela o pai referente ao que avistara. Eis que o pai pede ao filho que quando ele não houver mais nada da fortuna deixada, o jovem iria se suicidar naquele local, assustado e querendo acabar toda aquela ladainha o rapaz concorda ironicamente com tudo o que o pai falara. Passam-se os dias, o velho pai falece e o rapaz herda toda a herança. Este começa a gastar desenfreadamente tudo e em menos de dois anos não restara nada da fortuna deixada. Devido a esta situação, os ditos amigos o abandonaram, vendeu-se toda as terras que herdara, restando somente a casa e o pequeno casebre aos fundos. Lembrando-se de tudo o que o sábio pai alertara, recai sobre ele o arrependimento, e resta-lhe somente uma coisa, a promessa feita ao pai em vida, e este então segue em direção ao casebre, onde tudo iria ser consumado. Chegando ao local, o rapaz pega uma cadeira, sobre e coloca ao pescoço a corda preparada com tanto carinho pelo bondoso pai, e ao passo que vai ajeitando ao pescoço aquela que lhe tiraria a vida, e todo aquele sofrimento, de seus olhos saiam lágrimas amargas de arrependimento, eis que chega a hora, tudo ajeitado, o moço joga o corpo e a cadeira cai, ele em meio aquele agonia começa-lhe a faltar o ar e em seus olhos passa o filme de sua breve e fútil existência. Quando não restava mais nada para acontecer, eis que a madeira que segurava a corda se quebra e ele é arremessado ao chão e recai sobre ele várias moedas de ouro e um bilhete escrito a punho pelo próprio pai em vida que dizia: Eis tua segunda chance, vai e reconquiste tudo aquilo que perdera.
 Ao refletirmos sobre a história do pai e filho, se faz necessário voltar o olhar para nossa condição humana e perceber naquele filho desregrado, imaturo, orgulhoso e autossuficiente a própria história. Somos este que perde até o que não tem em prol de uma cultura desumana e vazia que nos direciona a morte.  Damos valor demasiadamente ao desnecessário, aquilo que preencherá nosso vazio com mais vazio e quando menos se esperar estaremos caídos no lamaçal, na podridão, não conseguindo nem sequer olhar ao redor e tentar encontrar uma fagulha de luz que dê esperança e conforto. A casa caiu, o mundo acabou, não resta nada mais a não ser o desespero e a angústia de não ter aproveitado melhor a oportunidade que fora dada um dia. Antes melhor não ter nascido, pois ao menos não sofreria tanto, e com este pensamento e sentimentos, segue-se então para onde tudo se encerrará. Eis a única esperança, acabar de vez com o sofrimento que fora plantado pelas próprias mãos. É o fim, e segue-se então ao ponto final da história, o fechar das cortinas, onde um dia houvera um espetáculo, caminha-se a passos lentos em direção da própria forca. É necessário seguir todo um ritual elaborado durante o percurso. A corda é posta ao pescoço, o fim se aproxima. É necessário somente um salto, não para a vida, mas rumo a morte, ao suposto fim que se julga ser a melhor opção e realmente o foi. Mas eis que em meio a peleja, o inevitável acontece, o inesperado surge, o pau se quebra, a corda rebenta, e cai-se ao chão, em breve instante pensa-se que o fim se sucumbiu, mas não, nova oportunidade lhe é oferecida, a cortina da vida se abre novamente, o palco da vida é exibido, não como decadência, mas oportunidade de reiniciar e dar outro fim aquilo que parecia acabado, exterminado.
É necessário olhar para cima, para o alto e contemplar as moedas que recaem sobre a cabeça e num salto recolher o bilhete que segue junto, que em seu escrito vem como um abraço de pai, não como correção, mas oferecendo alívio e sustento para caminhar. A luz é derramada, a treva dissipada e o florir de um novo e vasto horizonte é certeiro.  Levanta-se, diz a pobre carta, põe-se a caminho pois é necessário caminhar, fazendo da experiência escura e fria que se vivera um aprendizado, pois nem sempre quem caminha na escuridão fez lá sua morada. O pai oferece nova roupa, nova sandália, e um valioso anel em seu dedo. É restituído o que se perdera, a dignidade devolvida.