Certo
pai em idade avançada, percebe que seus dias estavam acabando e procura seu
único filho para conversar sobre as coisas da vida, orientações,
conselhos...Coisas que somente um pai amoroso pode oferecer ao rebento. Na
conversa fala com o filho referente as amizades, que grande parte não eram
sinceros, e que estavam somente interessados no dinheiro que ele tinha e que
quando mais precisasse deles, o abandonaria. O jovem achando aquele papo o mais
chato possível, ouviu para agradar o pai. No decorrer da conversa o ancião
chama o filho até o quintal, onde se localizava uma velha casinha, abrindo a
porta entram e veem somente ferramentas de trabalho e no fundo ao canto uma
forca. O rapaz fica meio perturbado ao ver aquilo e movido por curiosidade
interpela o pai referente ao que avistara. Eis que o pai pede ao filho que
quando ele não houver mais nada da fortuna deixada, o jovem iria se suicidar
naquele local, assustado e querendo acabar toda aquela ladainha o rapaz
concorda ironicamente com tudo o que o pai falara. Passam-se os dias, o velho pai
falece e o rapaz herda toda a herança. Este começa a gastar desenfreadamente tudo
e em menos de dois anos não restara nada da fortuna deixada. Devido a esta
situação, os ditos amigos o abandonaram, vendeu-se toda as terras que herdara,
restando somente a casa e o pequeno casebre aos fundos. Lembrando-se de tudo o
que o sábio pai alertara, recai sobre ele o arrependimento, e resta-lhe somente
uma coisa, a promessa feita ao pai em vida, e este então segue em direção ao
casebre, onde tudo iria ser consumado. Chegando ao local, o rapaz pega uma
cadeira, sobre e coloca ao pescoço a corda preparada com tanto carinho pelo bondoso
pai, e ao passo que vai ajeitando ao pescoço aquela que lhe tiraria a vida, e
todo aquele sofrimento, de seus olhos saiam lágrimas amargas de arrependimento,
eis que chega a hora, tudo ajeitado, o moço joga o corpo e a cadeira cai, ele
em meio aquele agonia começa-lhe a faltar o ar e em seus olhos passa o filme de
sua breve e fútil existência. Quando não restava mais nada para acontecer, eis
que a madeira que segurava a corda se quebra e ele é arremessado ao chão e
recai sobre ele várias moedas de ouro e um bilhete escrito a punho pelo próprio
pai em vida que dizia: Eis tua segunda chance, vai e reconquiste tudo aquilo
que perdera.
Ao
refletirmos sobre a história do pai e filho, se faz necessário voltar o olhar
para nossa condição humana e perceber naquele filho desregrado, imaturo,
orgulhoso e autossuficiente a própria história. Somos este que perde até o que
não tem em prol de uma cultura desumana e vazia que nos direciona a morte. Damos valor demasiadamente ao desnecessário, aquilo
que preencherá nosso vazio com mais vazio e quando menos se esperar estaremos
caídos no lamaçal, na podridão, não conseguindo nem sequer olhar ao redor e
tentar encontrar uma fagulha de luz que dê esperança e conforto. A casa caiu, o
mundo acabou, não resta nada mais a não ser o desespero e a angústia de não ter
aproveitado melhor a oportunidade que fora dada um dia. Antes melhor não ter
nascido, pois ao menos não sofreria tanto, e com este pensamento e sentimentos,
segue-se então para onde tudo se encerrará. Eis a única esperança, acabar de
vez com o sofrimento que fora plantado pelas próprias mãos. É o fim, e segue-se
então ao ponto final da história, o fechar das cortinas, onde um dia houvera um
espetáculo, caminha-se a passos lentos em direção da própria forca. É necessário
seguir todo um ritual elaborado durante o percurso. A corda é posta ao pescoço,
o fim se aproxima. É necessário somente um salto, não para a vida, mas rumo a
morte, ao suposto fim que se julga ser a melhor opção e realmente o foi. Mas eis
que em meio a peleja, o inevitável acontece, o inesperado surge, o pau se
quebra, a corda rebenta, e cai-se ao chão, em breve instante pensa-se que o fim
se sucumbiu, mas não, nova oportunidade lhe é oferecida, a cortina da vida se
abre novamente, o palco da vida é exibido, não como decadência, mas oportunidade
de reiniciar e dar outro fim aquilo que parecia acabado, exterminado.
É
necessário olhar para cima, para o alto e contemplar as moedas que recaem sobre
a cabeça e num salto recolher o bilhete que segue junto, que em seu escrito vem
como um abraço de pai, não como correção, mas oferecendo alívio e sustento para
caminhar. A luz é derramada, a treva dissipada e o florir de um novo e vasto
horizonte é certeiro. Levanta-se, diz a
pobre carta, põe-se a caminho pois é necessário caminhar, fazendo da experiência
escura e fria que se vivera um aprendizado, pois nem sempre quem caminha na
escuridão fez lá sua morada. O pai oferece nova roupa, nova sandália, e um valioso
anel em seu dedo. É restituído o que se perdera, a dignidade devolvida.
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