quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Flores no jardim da vida


Outro dia ao cair da tarde, deparei-me com lembranças que vieram reacender em meu coração sentimentos que haviam passados, mas nunca esquecidos. Lembranças que me remetiam a um saudosismo, ao que já passou, o ontem, mas não o que faz 24 horas em poucos instantes, mas o ontem de 22 anos atrás, aquele em que faz viajar até a infância, onde os meus maiores temores eram  o “bicho papão e o boi da cara preta que vinham pegar as crianças que tinham medo de careta e desobedientes” . Tempo que não volta mais, mas que valeu a pena cada instante vivido, pois não queríamos nada mais que ser criança, e mergulhar nas preocupações e encantos dessa própria fase que nada mais era que, levantar cedo para ir brincar, ver desenho animado e voltar a brincar novamente.
Fui visitado na lembrança por pessoas que convivi, que me viram crescer, e outras que vi partir, sem ao menos poder ter dito um adeus, carregado do mais sincero e puro abraço de quem somente sonhava. Enquanto eu chegava poucos anos depois elas partiam, retornavam ao fim último de cada ser. Aprendi que a vida é como em uma estação, “alguns chegando pra ficar e outros embarcando pra nunca mais voltar”. Se eu pudesse resumir a “ausência” desses queridos em uma palavra, seria saudade. Saudades do que foi bom, suave e até tempestuoso, mas somente saudades. Todos esses acontecimentos e pessoas que se foram e que ainda se fazem presentes, as carrego na lembrança, pois são flores no jardim da minha vida.
Ao buscar e reviver tais recordações, o coração acelera de tal modo em meu peito que as vezes penso que vai sair pela boca, e dos meus olhos caem lágrimas , pois o passado se faz presente no pensamento, dando vida aquilo tudo que estava adormecido, escondido. Não busco em tal ato as algemas que me tornarão cativo, mas os flashes de uma vida  carregada de história, que vem de encontro ao coração para amenizar a ausência de muitos , e reforçar mais ainda os laços que um dia foram criados, e creio que o tempo  e muito menos a morte poderá apagar, pois nada e ninguém morre quando se é lembrado ou carregado no coração de um outro alguém que ama e foi amado. Os anos passaram ligeiro, e quando me dei conta, já não era mais aquela criança, mas um adulto, com inúmeras responsabilidades diante de algo que um dia fora sonhado, plantado. Como é estranho olhar o mesmo cenário e encontrar tudo diferente, outros personagens, novas histórias. Eles não sabem, mas, ali, bem pertinho deles há algo escondido, que não pode ser negado, a experiência vivida com suas lembranças. É isto que resta-me, somente lembranças.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Vocação: Resposta ao Amor Libertador

Deus chama o homem a ser livre, liberto de todo tipo de prisão, tanto carnal quanto espiritual, para que, com base na liberdade, exerça sua função de semeador e agricultor da palavra de vida e verdade, num mundo que a cada dia se distancia da presença amorosa e misericordiosa de um Deus amante, que almeja somente o bem e a felicidade daqueles que foram criados a sua “imagem e semelhança” (Gn1, 26).
O Pai sempre cuida dos seus , e não permite de modo algum que estes se percam nos desertos  frios da vida, pois Ele é “ciumento e zeloso” (Is. 63,15). Este ciúme de Deus não é de modo algum pejorativo, mas, com base na liberdade e no cuidado, para que não se extraviem aqueles que são como as “pupilas de seus olhos”(Zc.2,8). Mesmo com tantos mimos, muitos se esquecem  e se rebelam contra Ele, e põe-se a caminhar em meio a penumbra,  fazendo sua morada nas trevas e descansando-se na “sombra da morte”(Lc.1,79). Ao se verem imersos na escuridão, tentam apoiar-se em seus próprios feitos e forças, buscando preencher o vazio com vazio em suas vidas, coisa que é impossível, pois são “cegos a guiar outros cegos”(Mt. 15,14), e se vêem em meio ao desespero e angústia, de terem se afastado daquele que emana em suma todo amor e acolhimento divinal. Ai se pergunta: Será que Deus se esqueceu de mim? Ou se faz surdo ao meu grito por socorro? A resposta para essas perguntas é não, Deus não rejeita oração e “não se esquece da aliança”(Sl 105,8), ou em outras palavras, Ele não despreza aqueles, cujos “nomes estão gravados em suas mãos e em seu coração”(Is. 49,16). O Pai nunca se esquece, pois Ele“não dorme e nem cochila”(Sl. 121,4), mas vai de encontro com aqueles que estão “perdidos e os resgatam”(Lc. 15,4), e esse processo se da por meio de homens corajosos que vão em busca daqueles que estão “gemendo e chorando no vale de lágrimas”, e os retira da cova dos leões, fazendo brilhar sua glória e seu poder por meio daqueles que Ele mesmo suscitou no meio do povo, para serem testemunhas vivas do Amor Misericordioso, que escolhe, capacita e envia  para que sejam “luz das nações”(At. 13,47).

Deus continua a chamar e enviar homens e mulheres para semear a palavra de esperança e amor, Ele não se cansa, sempre acredita e confia naqueles que foram escolhidos, e os sustentam com a “força que vem do alto”(Lc. 24,49), para adentrar nas prisões da vida e “libertar os cativos”(Lc. 4,18),fazendo brilhar sua comiseração junto aqueles que sofrem, para que libertos, façam a experiencia do amor e da liberdade  em Deus em suas vidas. Como havia dito, somos livre, porque Jesus nos libertou, e o amor  de Deus se da na liberdade humana, e assim,  parafraseando o filósofo Sartre, estamos condenados a ela, pois não existe amor sem liberdade,pois ambos andam juntos. E a vontade do Pai é que não haja ninguém nas amarras da vida, mas, gozando da liberdade em Cristo Jesus, para juntos como irmãos, membros da Igreja peregrina, em unidade e fervor , construamos a “civilização do amor”, onde impere  paz e  justiça a todos, sem distinção, mas em unidade de espírito para confessarmos juntos que “Jesus é o Senhor, para Glória de Deus Pai” (Fp.2,11). 
(Rene José de Sousa)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Realidade fria e cruenta...



A atual sociedade é marcada por uma cultura do descartável, onde se desvaloriza o ser humano, transformando-o em mero objeto, que quando não tiver mais serventia será arremessado ao lixo, onde deixará de ser gente (ser humano), para transformar-se em algo qualquer, esquecido e aniquilado nas margens da existência.  E este novo jeito de ser é fortalecido e propagado pelo capitalismo, sistema desumano, monstruoso e opressor, que esmaga milhões com suas “grandes patas”, destruindo e gerando vazio existencial. Cultura esta que também influencia a religião (teologia), “tornando-a sua serva”, camuflada com belas roupagens e enfeitada por uma espiritualidade vazia e desnecessária que desvaloriza o relacionamento entre pessoas (principalmente entre os “diferentes” culminando nas intolerâncias), inserindo-as no individualismo, onde se faz valer os próprios interesses, que nada mais são os reflexos desse sistema que segrega e mata todos os que não o segue. Conquista e arrebanha pessoas pela cruz como no império bizantino, mas ao invés de denunciar, compactua-se, gerando e reproduzindo pessoas despedidas de sentimentos, transformadas em máquinas. Infiltrada no meio teológico, podemos perceber nas diversas confissões religiosas incluindo as cristãs, discursos e práticas imbuídas por esse sistema, inserindo e inculcando no indivíduo um imediatismo tanto espiritual quanto temporal, que o isenta de uma responsabilidade social, com o meio em que vive, fazendo valer somente seus interesses pessoais,gerando uma sociedade marcada pela falta de paciência e comprometimento que, como fora dito anteriormente nada mais é do que reflexo do sistema que criou morada no meio religioso. Como já denunciava o Prof. Dr. Pe. Agenor Brighenti: “Também a religião passa a ser consumista, centrada no indivíduo e na degustação do sagrado, entre a magia e o esoterismo...”, novamente podemos perceber o retrocesso, aquele que se autocomunica por livre vontade e amor, passa a ser comercializado e oferecido como produto nas diversas prateleiras dos grandes “supermercados religiosos”, que se encontram em qualquer esquina.
Laços foram desfeitos, relacionamentos interrompidos, e a religião seria a construtora de pontes, onde religaria e reestabeleceria tudo aquilo um dia fora desfeito, mas como fora dito anteriormente, esta se deixou embebedar pelo lucro fácil e ao invés de ponte, passou a ser o pedágio ao qual se tem que pagar para poder extasiar-se com o sagrado e nele fazer sua experiência, não que este venha a cobrar, mas os homens que respondem e falam por ele assim o fazem, desvirtuando assim todo enlaço e reencanto que deveria surgir. O intuito desta reflexão não é de modo algum desmoralizar tais instituições, mas pelo contrário, refletir sobre o reflexo do capitalismo na religião (teologia) e as consequências que este provoca na vida do homem contemporâneo que se deixa seduzir por tal saborosa e intrigante inversão de valor, que induz a sociedade a “confundir-se prosperidade material com salvação pessoal”, duas realidades distintas, mas misturada na mesma panela e servida ao povo. É necessário, fazer o caminho inverso, retornar as origens para resgatar o que fora esquecido, perdido, pois caso contrário, seremos uma cambada de primata despida de sentimentos transformada e meras máquinas, onde se tornam frios e calculistas.
Vós sois homens, não sois máquinas, já denunciava Charles Chaplin, em o último discurso de o grande ditador, é necessário voltar a ser humano coberto pelo manto da sensibilidade que percebe e sente aquele que está ao lado. Trazer a tona aquela novidade tão antiga e atual que nos insere no mundo, fazendo daqueles que nele habita nossos irmãos, corresponsáveis por tudo que nos cerca, sendo agentes transformadores de si e do meio em que vivem, fazendo chegar à mudança que tanto almejamos. Mas esta só chegará a partir da tomada de consciência de tais acontecimentos na sociedade, e só chegará à consciência plena de tal efeito destrutivo infiltrado em nosso meio quando se desvendar os olhos e observar a realidade fria e inanimada a qual estamos inseridos.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O abandono...

Abandonar-se em Deus é pôr-se a caminho, em uma estrada fria e escura, cheia de pedregulhos e iluminar-se somente com a fagulha brilhante de nossa alma, que um dia fora acesa. Esse caminhar é confiar, mesmo quando aquele que nos chamou põe-se em silencio, as vezes este calar-se do divino incomoda, gerando desanimo, medo, incertezas, mas mesmo assim nesta fria estrada é necessário caminhar, fazer caminhos pelas trevas da incerteza, ferindo os pés nos espinhos do orgulho e a soberba e continuar confiando, pois a chama brilhante da alma daquele que crê o consola e fortalece.
O abandono em Deus não é algo fácil, que se começa hoje e tudo prossegue em mar de rosas, pelo contrário, sempre existe um espinho em meio as belas e perfumosas rosas, este não anula a beleza e a fragrância de tão formosa flor, pelo contrário, a torna mais ainda desejada pelas pessoas. O exemplo da rosa, traduz para nós a confiança que devemos ter no Bom Mestre, mesmo que se fira os pés e seja banhado pelo desanimo, somos convidados a contemplar a beleza e odor do divino que se apresenta a nós, afagando-nos, curando as feridas abertas e impelindo-nos a caminhar e orientando-nos a não ficarmos presos ao que já  passou, pois nosso passado não mais do que o amor que Ele sente por cada um de nós.

Fazer a experiência do amor é participar da intimidade do Senhor, permitindo que este nos ampare em seu colo materno-paterno, e ao sermos consolados, postos novamente a caminhar, não por maldade, mas por zelo e sabedoria, pois sabe que somos acomodados, e ao passo que nos familiarizamos (acostumamos) com algo, passamos a não perceber a novidade que nos apresenta constantemente, fechando-nos naquilo que fora vivenciado e não atualizando tal amor e sentimento de pertença com aquele que tudo pode, pois conhece por completo os filhos que tem, e sabe que para se aprender a andar é necessário cair, não uma,mas várias vezes nessa via que somente Ele sabe onde chegara.

domingo, 9 de junho de 2013

A viúva...

O mundo praticamente havia acabado naquele momento para aquela mãe, seu único filho havia falecido, estava desestruturada, sem chão, pois o fruto do seu ventre estava ali, diante dos seu olhos materno, inanimado,frio, sem vida. Imagine a dor que aquela pobre e simples viúva sentia. Viúva e agora sem seu amado filhinho, provavelmente era ele que ajudava a prover o sustento na casa, pois naquela época, as viúvas eram desamparadas, desvalidas, não que elas não tivessem valor em si, pelo contrário, eram portadoras de tal, mas não era legitimado pela sociedade machista, cruel, fundamentalista e opressora, pois era mulher e não possuía nem voz nem vez, mulher silenciada, maltratada, que tinha como consolo somente suas lágrimas, amargas, dolorosas e angustiadas.
Não se via mais esperança em seu olhar, a luz que deveria haver no fim do túnel, simplesmente não brilhara para ela até o momento, o mundo havia caído em sua cabeça, e em passos lentos entregava o corpo de seu único filho ao mundo dos mortos. Não porque ela quisesse, mas porque assim se sucedeu. Eis que sem sua percepção, um consolo singelo tocou-lhe a alma, não chores! Dizia uma voz, amável e profunda. Ao passo que se ouvia tal palavras, algo diferente surgia naquela pobre e triste existência, as trevas  começaram a se dissipar, pois fagulhas de luz que se tornavam raios de amor a visitava, tornando o impossível possível, restituindo a vida aquele que adormecia no sono da morte. Não muito diferente, hoje em pleno século XXI, muitos caminham desnorteados nas estradas da vida, perdidos, desesperançados, não vislumbram nenhuma faísca de luz ou esperança, pois  fizeram do túmulo suas moradas, transformando-se num morto-vivo.
Acostumados com a ausência de vida, perambulam de um lado ao outro, e com isso não percebem a novidade viva e eterna que se aproxima ou passa ao redor, Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que se compadece estendendo a mão. As vezes o túmulo é mais cômodo do que o levantar e tomar posse da vida nova que é oferecida, a novidade causa medo e este trava nossas pernas e braços impossibilitando-nos de sair. Ao refletirmos sobre a viúva de Naim, somos convidados a nos levantar, revestindo-nos com o manto da vida e esperança que o Senhor nos oferece, ao passo que esta ressoe no mais íntimo de nosso ser, no plano puramente físico, em relação a nós, ao outro e ao mundo. O aderir a vida, é revestir-se da luz e lutar contra tudo que gera morte e trevas, a começar em nós, em seguida em nossa família e a partir desta vivencia pura e amorosa, refletir  na sociedade, chagada pelas desgraças do desamor, indiferença, orgulho e ganância. Temos que transformar a vida em ação, pleno movimento rumo ao próximo e automaticamente se direcionará ao Criador que nos visitou, e visita constantemente e esta não se dá de modo algum  vazia, despida de sentido, mas na plenitude da graça que nos impele pela fé a ressignificar nossa existência em Cristo e por Cristo, pois somente Ele é que pode proporcionar tal mudança em nosso ser, porque somos um risco que Deus assumiu com amor e misericórdia, caso contrário, continuaremos a vagar sem sabermos onde queremos chegar.   


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Recomeçar


Certo pai em idade avançada, percebe que seus dias estavam acabando e procura seu único filho para conversar sobre as coisas da vida, orientações, conselhos...Coisas que somente um pai amoroso pode oferecer ao rebento. Na conversa fala com o filho referente as amizades, que grande parte não eram sinceros, e que estavam somente interessados no dinheiro que ele tinha e que quando mais precisasse deles, o abandonaria. O jovem achando aquele papo o mais chato possível, ouviu para agradar o pai. No decorrer da conversa o ancião chama o filho até o quintal, onde se localizava uma velha casinha, abrindo a porta entram e veem somente ferramentas de trabalho e no fundo ao canto uma forca. O rapaz fica meio perturbado ao ver aquilo e movido por curiosidade interpela o pai referente ao que avistara. Eis que o pai pede ao filho que quando ele não houver mais nada da fortuna deixada, o jovem iria se suicidar naquele local, assustado e querendo acabar toda aquela ladainha o rapaz concorda ironicamente com tudo o que o pai falara. Passam-se os dias, o velho pai falece e o rapaz herda toda a herança. Este começa a gastar desenfreadamente tudo e em menos de dois anos não restara nada da fortuna deixada. Devido a esta situação, os ditos amigos o abandonaram, vendeu-se toda as terras que herdara, restando somente a casa e o pequeno casebre aos fundos. Lembrando-se de tudo o que o sábio pai alertara, recai sobre ele o arrependimento, e resta-lhe somente uma coisa, a promessa feita ao pai em vida, e este então segue em direção ao casebre, onde tudo iria ser consumado. Chegando ao local, o rapaz pega uma cadeira, sobre e coloca ao pescoço a corda preparada com tanto carinho pelo bondoso pai, e ao passo que vai ajeitando ao pescoço aquela que lhe tiraria a vida, e todo aquele sofrimento, de seus olhos saiam lágrimas amargas de arrependimento, eis que chega a hora, tudo ajeitado, o moço joga o corpo e a cadeira cai, ele em meio aquele agonia começa-lhe a faltar o ar e em seus olhos passa o filme de sua breve e fútil existência. Quando não restava mais nada para acontecer, eis que a madeira que segurava a corda se quebra e ele é arremessado ao chão e recai sobre ele várias moedas de ouro e um bilhete escrito a punho pelo próprio pai em vida que dizia: Eis tua segunda chance, vai e reconquiste tudo aquilo que perdera.
 Ao refletirmos sobre a história do pai e filho, se faz necessário voltar o olhar para nossa condição humana e perceber naquele filho desregrado, imaturo, orgulhoso e autossuficiente a própria história. Somos este que perde até o que não tem em prol de uma cultura desumana e vazia que nos direciona a morte.  Damos valor demasiadamente ao desnecessário, aquilo que preencherá nosso vazio com mais vazio e quando menos se esperar estaremos caídos no lamaçal, na podridão, não conseguindo nem sequer olhar ao redor e tentar encontrar uma fagulha de luz que dê esperança e conforto. A casa caiu, o mundo acabou, não resta nada mais a não ser o desespero e a angústia de não ter aproveitado melhor a oportunidade que fora dada um dia. Antes melhor não ter nascido, pois ao menos não sofreria tanto, e com este pensamento e sentimentos, segue-se então para onde tudo se encerrará. Eis a única esperança, acabar de vez com o sofrimento que fora plantado pelas próprias mãos. É o fim, e segue-se então ao ponto final da história, o fechar das cortinas, onde um dia houvera um espetáculo, caminha-se a passos lentos em direção da própria forca. É necessário seguir todo um ritual elaborado durante o percurso. A corda é posta ao pescoço, o fim se aproxima. É necessário somente um salto, não para a vida, mas rumo a morte, ao suposto fim que se julga ser a melhor opção e realmente o foi. Mas eis que em meio a peleja, o inevitável acontece, o inesperado surge, o pau se quebra, a corda rebenta, e cai-se ao chão, em breve instante pensa-se que o fim se sucumbiu, mas não, nova oportunidade lhe é oferecida, a cortina da vida se abre novamente, o palco da vida é exibido, não como decadência, mas oportunidade de reiniciar e dar outro fim aquilo que parecia acabado, exterminado.
É necessário olhar para cima, para o alto e contemplar as moedas que recaem sobre a cabeça e num salto recolher o bilhete que segue junto, que em seu escrito vem como um abraço de pai, não como correção, mas oferecendo alívio e sustento para caminhar. A luz é derramada, a treva dissipada e o florir de um novo e vasto horizonte é certeiro.  Levanta-se, diz a pobre carta, põe-se a caminho pois é necessário caminhar, fazendo da experiência escura e fria que se vivera um aprendizado, pois nem sempre quem caminha na escuridão fez lá sua morada. O pai oferece nova roupa, nova sandália, e um valioso anel em seu dedo. É restituído o que se perdera, a dignidade devolvida.